Tecnologia Social
- 27 de jan.
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Atualizado: 9 de fev.

Em uma pesquisa que realizamos no interior do Tocantins, nosso objetivo era compreender o impacto de uma política pública federal de acesso à água em regiões de crise hídrica. O programa distribuía reservatórios de 16 mil litros, acompanhados de um kit simples — telhado e calhas — para captação da água da chuva. O investimento federal era significativo e o impacto, imensurável.
Em muitos casos, mulheres e crianças deixavam de caminhar até duas horas carregando água na cabeça para conseguir água limpa para cozinhar e tomar banho. Sem água, não era possível plantar, criar animais e boa parte da organização do cotidiano era consumida pela rotina de buscar água. Em várias entrevistas, surgia a mesma memória: quando eram crianças, havia córregos por perto. Hoje, eles desapareceram.
Até aqui, o esperado.
O que nos chamou atenção foi uma entrevista específica. Em determinada região, havia apenas uma mulher que não havia recebido o reservatório. Ao ser perguntada, explicou que não se cadastrou porque um vizinho disse que, se o fizesse, perderia o Bolsa Família. Era mentira, mas o efeito foi real: ela ficou fora do programa.
Na mesma região, visitamos um quilombo. A realidade ali era duríssima, mas a forma de enfrentar era coletiva. Jovens que dominavam a escrita e circulavam pela vila cuidavam da “papelada”. Uma outra organizava as prioridades da comunidade considerando idade, crianças, mobilidade. Tudo a partir da escuta dos moradores com necessidades anotadas em um caderno e transformadas em requisições, inscrições e acompanhamento. Muito simples, muito objetivo e eficaz.
Pouco se fala sobre um efeito colateral recorrente da política personalista, que estimula o individualismo às custas do apreço das pessoas pelo coletivo. O que se produz, muitas vezes, é a redução da experiência política à última partícula, o indivíduo, e, com isso, o desarranjo da mentalidade comunitária.
Muitos problemas poderiam ser resolvidos coletivamente e tantos outros sequer seriam criados se houvesse consciência política comunitária e circulação compartilhada da informação.
O exemplo ancestral não é uma viagem poética mas tecnologia social aplicável.
Hoje, eleitores são tão impotentes diante dos poderes centrais quanto são incapazes de se alinhar com os próprios vizinhos e essa situação reverbera no voto porque a política personalista impõe um único filtro e um único canal de entrega destruindo o elo entre problema comum e solução comum.
Perdemos o ponto da inteligência coletiva e as próximas eleições precisam ser o caminho de retoma-lo fazendo política de verdade.



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